"Passar tempo na natureza selvagem polar, desacelerar para observar e ouvir enquanto também estudava os ecossistemas ao redor, evidenciou a natureza delicada de tudo."
Ela começou junto ao rio Brenta no nordeste da Itália, onde o ar alpino e as águas ondulantes despertaram uma tranquila fascinação pela vida selvagem. Anos depois, essa admiração inicial levou Margherita Lucadello a alguns dos lugares congelados mais remotos do planeta, onde agora conduz outros exploradores por fiordes do Ártico e costas da Antártica.
O que despertou seu amor pela natureza na infância?
Margherita: Minha fascinação pelo mundo natural começou cedo, com verões passados junto ao mar na Itália com minha avó e em Brunico, perto das Dolomitas, com minha mãe e minha irmã. A beleza desses lugares permaneceu comigo e me trouxe de volta à natureza ano após ano. Meu pai – biólogo de coração, com um vasto conhecimento do mundo – ensinou-me a ser sempre curiosa. Viver perto do rio Brenta, bem ao pé das montanhas, também fortaleceu essa ligação.
Quem ou o que a atraiu para a biologia marinha?
Margherita: Os verões que passei no mar foram os momentos mais belos e tranquilos da minha infância. Voltar ao mar a cada ano era como reencontrar um velho amigo. De certo modo, o próprio mar foi meu mentor. Eu sabia que era o caminho que queria seguir. Mudei-me para Portugal, para estudar na Universidade do Algarve. No início, morei perto da universidade. Contudo, logo me mudei para uma antiga casa de pescador na praia. Acordar com o mar bem à saída da porta foi uma experiência inestimável!
Quando a biologia e a exploração deixaram de ser apenas interesses?
Margherita: Na escola, ciências sempre foi uma das minhas matérias favoritas, e eu adorava ler revistas como Focus e National Geographic para me inspirar. Minha participação noprojeto do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) "Riverwalk",um belo projeto internacional que envolvia tanto exploração quanto conservação da natureza, começou quando entrei na universidade, consolidando que biologia e exploração eram minha vocação. O objetivo do projeto Riverwalk era organizar caminhadas selvagens ao longo de rios na Itália, Eslovênia, Áustria ou Albânia, envolvendo a população local na discussão sobre ecossistemas fluviais.

Ciência nas regiões polares
Como foi participar do programa Erasmus+ em Ecologia Polar na República Tcheca?
Margherita: Foi uma das experiências mais selvagens da minha vida. Como parte do programa Erasmus, meu destino inicial foi a remota estação de pesquisa Petuniabukta em Svalbard, onde passei dois meses trabalhando e coletando amostras de geleiras. Depois disso, viajei para a República Tcheca para analisar as amostras e completar meus exames do Erasmus.
Como essas experiências a prepararam para viver e trabalhar no Ártico?
Margherita: Não vou negar que meu tempo em Svalbard foi inicialmente muito desafiador, pois foi minha primeira experiência em um ambiente tão extremo. Trabalhar nas regiões polares exige flexibilidade, adaptabilidade e autossuficiência. Habilidades sólidas de trabalho em equipe, foco e manter-se informada também são cruciais. Meu período em Petuniabukta proporcionou uma curva de aprendizado rápida e intensa, moldando-me significativamente e ensinando lições que continuo aplicando.
O que são buracos de crioconita e por que eram importantes para sua pesquisa?
Margherita: Buracos de crioconita são pequenos ecossistemas arredondados encontrados nas áreas de ablação de geleiras, tipicamente com cerca de 20 centímetros de largura. São bolsões de água derretida com sedimentos escuros no fundo, onde a vida prospera. Esses buracos abrigam diversas formas de vida, incluindo vírus, rotíferos, fungos e tardígrados, que foram o foco da minha pesquisa. Estudei diferentes geleiras para categorizar os buracos de crioconita e as espécies de tardígrados que vivem neles.
Sua experiência em Svalbard mudou sua compreensão sobre as mudanças climáticas?
Margherita: Absolutamente. A estação de pesquisa estava localizada bem em frente à belíssima geleira Nordenskiöldbreen. Do outro lado do fiorde, podíamos ouvir o som crescente do desprendimento de gelo (calving) à medida que o verão avançava. Passar tempo na natureza selvagem de Svalbard — desacelerar para observar e ouvir enquanto também estudava os ecossistemas ao redor — evidenciou a delicadeza de tudo e a interconexão mesmo entre elementos aparentemente díspares. Ficou claro o quanto pequenas mudanças ambientais podem ser significativas para todo o ecossistema de Svalbard.

Da pesquisa à condução de expedições
O que a levou a fazer a transição da pesquisa para guiar expedições?
Margherita: Enquanto pesquisava em Svalbard, fiz amizade com a tripulação do navio Aurora, de uma operação chamada Arctic Explorer, de Tromsø. Ao retornar para casa, senti uma forte vontade de voltar ao Ártico. Quando finalmente voltei à Noruega, fui hospedada a bordo do Stronstad, outro navio da Arctic Explorer, onde comecei a auxiliar os guias e me apaixonei completamente pelo trabalho! Desde então, trabalhei em navios, passando das minhas primeiras experiências como guia de observação de baleias para expedições completas.
Como foi começar a guiar outras pessoas por lugares que você havia estudado como cientista?
Margherita: Foi maravilhoso, e exatamente o que eu queria fazer com meu tempo. Adorei compartilhar minhas experiências pessoais e a paixão que desenvolvi durante meu tempo no Ártico com muitas outras pessoas interessadas. Viver mais momentos nas regiões polares com pessoas tão apaixonadas quanto eu foi inestimável.
Quais emoções a atingiram primeiro quando você chegou ao Ártico?
Margherita: A beleza diante dos meus olhos era diferente de tudo que eu já tinha visto — algo que eu ainda não conseguia compreender — e essa estranheza foi um tanto assustadora. Entretanto, depois de um tempo, só a beleza permaneceu. A natureza selvagem do lugar me cativou completamente, e comecei a me sentir cada vez mais parte de sua essência selvagem.
Como a condução no Ártico se compara à Antártica?
Margherita: Trabalhar no Ártico apresenta um desafio único por causa dos ursos-polares. De modo geral, os dias de trabalho no Ártico tendem a ser mais longos do que na Antártica, embora o clima desafiador e as numerosas verificações de biossegurança na Antártica também possam consumir muito tempo. O Ártico foi minha primeira experiência polar e sempre terá um lugar especial no meu coração, mas também amo profundamente a Antártica, particularmente a beleza de seus majestosos icebergs e a incrível fofura dos pinguins!
Qual foi o momento com a vida selvagem mais impressionante que você vivenciou?
Margherita: Isso é difícil! Com certeza ver orcas e baleias-jubarte na baía de Skjervøy, ao norte de Tromsø, está na lista. A quantidade de baleias lá era incrível! Nem sempre conseguimos sair de Zodiac, mas quando saíamos, tanto as jubartes quanto as orcas frequentemente vinham nos investigar. Quando trabalhava lá, era sempre crepúsculo; a noite polar pode pintar o céu com tons mágicos de roxo, rosa e azul, tornando cada encontro profundamente mágico. Claro que cada encontro com ursos-polares também entra na lista. E no ano passado, em Svalbard, minhas colegas me chamaram pelo rádio para me virar, pois fui surpreendida por uma raposa-do-ártico que chegou bem perto enquanto eu estava parada; ela então circulou ao meu redor e ficou sentada por um tempo. E como esquecer meu primeiro pinguim? Foi um pinguim-de-adélia na Baía Paraíso.
Como começa um dia típico em uma expedição polar?
Margherita: Depende muito do dia e do local; no Ártico, por exemplo, o posicionamento para reconhecimento pode ser por volta das 7h00 ou antes. O objetivo principal é procurar por ursos-polares, porque definitivamente queremos avistá‑los ainda a bordo e não quando estivermos em terra. Depois disso, a preparação para operações dependerá de muitos fatores, geralmente às 07:45, o que significa que você precisa estar totalmente vestido e no Zodiac até então. As manhãs de expedição são, em geral, sempre muito ativas e exigem que todos estejam prontos para mudanças de última hora, pois nas regiões polares a vida selvagem e o clima decidem como o dia vai transcorrer.

Por trás da câmera
Como você entrou na fotografia da vida selvagem?
Margherita: No meu primeiro contrato, me deram uma câmera e um tripé e fui responsável pela fotografia das auroras boreais. A partir daí, trabalhar nas regiões polares expôs-me a uma abundância de cenários e vida selvagem tão belos que naturalmente me levou a aprender cada vez mais sobre fotografia.
Como a fotografia afeta sua conexão com a natureza?
Margherita: Adoro capturar momentos do que vejo — especialmente a vida selvagem polar — para mim mesma e, em parte, também para compartilhar com meus entes queridos e ajudá‑los a entender melhor minhas experiências e meu trabalho. Certamente, o desejo de tirar boas fotos me incentiva a observar a natureza ainda mais de perto, quando possível.
Como você equilibra ciência com narrativa?
Margherita: Preparar as palestras que faço a bordo é o melhor exercício para decidir como explicar e apresentar informações científicas por meio de imagens visuais. É uma parte muito divertida e interessante do trabalho!

Trabalhando juntos em lugares remotos
De onde vem seu forte espírito de equipe?
Margherita: Trabalhei com o Fundo Mundial para a Natureza por dois anos durante meu bacharelado em biologia. Foi parte de uma equipe muito internacional que organizou duas edições do projeto Riverwalk. O objetivo era formar um grupo de cerca de 15 pessoas capazes de caminhar e viver juntas, dormindo ao ar livre, obtendo alimentos locais e envolvendo as comunidades para aumentar a conscientização sobre ecossistemas fluviais. Tanto organizar quanto participar desses projetos exigiu trabalho em equipe. Oficinas de formação de equipes, treinamentos e exercícios me moldaram consideravelmente. Viajar, sozinha e em grupo, também me ajudou a desenvolver essas habilidades interpessoais tão importantes.
Como é a vida entre sua equipe no mar?
Margherita: Estar a bordo é como estar em uma pequena ilha — uma ilha bela e em movimento com cerca de 100 pessoas vivendo e trabalhando juntas. É preciso saber comunicar-se, colaborar e superar momentos desafiadores quando eles surgem. Todos os departamentos estão, na maior parte do tempo, muito bem conectados, e aqueles a bordo tornam-se como uma pequena família. Todos cuidam uns dos outros, independentemente do departamento. Cada membro da tripulação tem a mesma importância que qualquer outro. É uma família oceânica intensa e bonita.
Há alguma memória ou história com sua equipe que ainda a faz sorrir?
Margherita: Muitos momentos me fazem sorrir. Na minha última viagem à Antártica, a alegria compartilhada de poder desembarcar em Tristão da Cunha foi certamente um deles. Ao final de cada dia de expedição, quando voltamos para o navio em um Zodiac, esse é um momento partilhado maravilhoso. Tenho toneladas de vídeos de momentos especiais que vivi com minha família de expedição!

Reflexão e conexão
Como você vê seu papel em inspirar outras pessoas a cuidar do meio ambiente?
Margherita: Espero que as pessoas retornem para casa de suas viagens com uma nova perspectiva, observando aquilo a que estão habituadas com maior atenção e compreensão. Tomara que também compartilhem com outros o que sentiram e difundam seu amor por estas regiões tão delicadas.
O que você gostaria que todos compreendessem sobre as regiões polares?
Margherita: O que está acontecendo na Geórgia do Sul, na Antártica e em Svalbard está acontecendo em todo o resto do mundo. Os oceanos estão todos interligados; aves como as andorinhas-do-mar podem voar das regiões polares até os jardins dos hóspedes — tudo está conectado. Quanto mais soubermos, mais compreenderemos, e quanto mais protegermos cada lugar, melhor viveremos agora e no futuro. Pequenas escolhas e ações importam muito.
Você já teve um momento em que a natureza lhe tirou completamente o fôlego?
Margherita: Não apenas uma vez. A primeira vez em Petuniabukta me deixou sem fôlego. Era um dia lindo e ensolarado, estávamos navegando num Zodiac com condições perfeitas no mar, fulmares voando perto de nossas cabeças e belugas na água — lembro-me de fechar os olhos, mal acreditando no que via. Também visitar Nordaustlandet pela primeira vez — um imenso paredão de gelo com cachoeiras despencando — foi impressionante. E quando desembarquei na Geórgia do Sul pela primeira vez, não pude acreditar na quantidade de vida selvagem na praia.
O que vem a seguir para você?
Margherita: Os polos continuam me atraindo de volta — sua beleza é simplesmente viciante. Acabei de voltar do Ártico! Há uma semana deixei o SH Vega, depois de viajar pelo Canadá, pela Groenlândia, pela Islândia, por Jan Mayen e por Svalbard. Vou para os destinos mais recentes da Swan Hellenic na minha próxima viagem. Ainda não posso falar sobre isso, mas estou muito empolgada!