Quando Urs H. Fischer fala sobre glaciares, suas palavras carregam tanto o assombro da aventura quanto o peso da ciência. Para ele, paisagens geladas não são apenas locais de pesquisa – são mundos vivos e em movimento. Desde seus primeiros estudos de campo nas Montanhas Saint Elias, no norte do Canadá, Urs dedicou sua vida a compreender os glaciares. Sua carreira o levou ao Himalaia, aos Alpes Europeus, à Escandinávia, ao Ártico e agora a bordo das viagens Swan Hellenic. Continue lendo enquanto Urs compartilha histórias de descoberta, percepções sobre a vida dos glaciares e os encontros inesquecíveis que aguardam no Ártico.
"A ideia de explorar paisagens geladas e realizar pesquisas significativas era irresistível!"
Olá Urs! O que primeiro despertou sua fascinação pelo gelo e pelos glaciares?
Urs: Foi definitivamente a emoção de combinar ciência com aventura que me atraiu. A ideia de explorar paisagens geladas e realizar pesquisas com propósito – era irresistível!
Como você iniciou sua carreira como glaciologista?
Urs: Sinceramente, foi uma mistura de coincidência e muita sorte. Depois de concluir meu bacharelado em física, eu sabia que queria algo que envolvesse trabalho de campo. Então comecei a procurar programas universitários e me deparei com a glaciologia, algo que eu nem sabia que existia na época. Parecia totalmente empolgante. Candidatei-me, fui aceito e acabei trabalhando com um dos melhores na área, em uma das partes mais bonitas do mundo. Foi aí que fiquei fisgado!
Você pode nos levar de volta à sua primeira campanha de campo nas Montanhas Saint Elias em 1989 – o que você lembra com mais vividez?
Urs: Não é apenas um momento; é toda a experiência que ainda está gravada na minha memória. Eu havia acabado de me mudar de uma pequena cidade de Ontário para Vancouver, o que já foi uma grande mudança. Depois veio a primeira viagem ao Yukon: meu primeiro voo de helicóptero, montar acampamento nas remotas Montanhas Saint Elias, cercado por glaciares e picos nevados imponentes... foi de tirar o fôlego. Tudo era novo, a curva de aprendizado era íngreme, mas foi incrivelmente recompensador.
Como esse primeiro encontro com campos de gelo infinitos mudou o rumo da sua vida?
Urs: Essa experiência acendeu a faísca. Ela me deu uma paixão duradoura por lugares frios e um compromisso vitalício com a glaciologia. Percebi o quão forte era essa paixão quando fiz um breve desvio da pesquisa e trabalhei por dois anos em companhias ferroviárias suíças. Não demorou para compreender que aquele não era o meu caminho. Eu precisava voltar ao gelo. Hoje, tenho a sorte de me dedicar a processos glaciares e climáticos em meu papel na organização suíça de gestão de resíduos nucleares, estudando como futuras eras glaciares poderiam moldar a evolução geológica de longo prazo do norte da Suíça – um tema fascinante que continua a aprofundar minha compreensão das dinâmicas climáticas.

Glaciares, mudanças e compreensão
Você já trabalhou em algumas das regiões glaciais mais remotas do mundo. Houve alguma que o desafiou mais do que as outras?
Urs: Cada região apresenta seus próprios desafios. Por exemplo, o Himalaia. A grande altitude foi algo a que eu não estava acostumado, e sofri bastante com o mal da altitude na caminhada até o glaciar. Pedi para permanecer mais um dia em um dos acampamentos para me aclimatar e, graças a Deus, fiz isso. Caso contrário, talvez tivesse tido que voltar. Foi uma experiência humilhante, mas também me ensinou a ouvir meu corpo e a respeitar o ambiente.
Como os glaciares servem como indicadores das mudanças climáticas?
Urs: Isso é algo que abordo em uma das minhas palestras. Os glaciares respondem diretamente ao clima por meio do seu balanço de massa, essencialmente se ganham ou perdem gelo ao longo do tempo. Esse balanço controla como um glaciar flui e se ele avança ou recua. Então, quando você vê um glaciar recuando ao longo de décadas, é um sinal atrasado, mas muito visível, das mudanças climáticas. É algo que qualquer pessoa pode observar com seus próprios olhos.
Qual é uma concepção errônea comum que as pessoas têm sobre glaciares ou regiões polares?
Urs: Uma das concepções errôneas mais comuns é que os glaciares são estáticos e sem vida, meras paisagens congeladas que nunca mudam. Na realidade, eles são incrivelmente dinâmicos! Os glaciares estão em constante movimento, fluindo, rachando e respondendo ao ambiente. Outra ideia equivocada é que as regiões polares são áridas e vazias. Mas passe apenas um pouco de tempo lá e verá que são cheias de beleza sutil, vida selvagem fascinante e ecossistemas complexos. O silêncio pode enganar; há muito acontecendo se você souber onde olhar.
O que mais o entusiasma nas paisagens árticas que você explorará com os hóspedes da Swan Hellenic?
Urs: Ah, por onde começo? Navegar em um bote – ou melhor ainda, em um caiaque – em frente a um glaciar costeiro é uma experiência inesquecível. Você escuta aquele estalo enquanto bolhas de ar aprisionadas por séculos se libertam enquanto o gelo derrete, e então – boom! – um evento de desprendimento, quando enormes blocos de gelo se quebram e caem no mar. É tão potente e completamente hipnotizante.
"Espere o inesperado – o Ártico tem uma maneira de surpreender você todos os dias."

Perseguindo gelo e aventura
Você vai embarcar no cruzeiro de 9 noites de Svalbard à Noruega. O que os hóspedes devem observar?
Urs: Espere o inesperado! O Ártico tem uma maneira de surpreender você todos os dias, com a vida selvagem, o clima, a luz e o gelo. Mantenha a curiosidade e deixe Svalbard revelar suas histórias.
Nos Cruzeiros de Ida e Volta até a Fronteira do Ártico, quais serão os destaques que os hóspedes podem esperar?
Urs: Navegar até a banquisa é um destaque absoluto. Primeiro vem o estrondo enquanto o navio empurra o gelo. Tão poderoso e dramático. Então, de repente, tudo fica parado. O navio apoia-se contra uma laje de gelo, e você se vê à deriva no completo silêncio pelo Oceano Ártico. É mágico.
O que você mais aguarda com expectativa nessas próximas viagens?
Urs: Estou realmente animado para partilhar as deslumbrantes paisagens árticas com hóspedes curiosos e apaixonados. O que mais me entusiasma é a oportunidade de testemunhar e explicar a beleza impressionante dos glaciares de perto, promovendo uma compreensão mais profunda desse ambiente frágil. Cada viagem traz momentos únicos: a emoção de assistir a um evento de desprendimento de icebergs, a magia de navegar por lajes de gelo pristinas e a alegria compartilhada da descoberta com os hóspedes. Mal posso esperar para embarcar nessas jornadas juntos e criar experiências inesquecíveis que inspirem apreço e proteção ao Ártico.
Da ciência ao espanto compartilhado
Como você traz sua pesquisa para as conversas com os hóspedes?
Urs: Frequentemente está nas pequenas coisas, apontando uma morrena (acúmulo glacial de detritos), uma fenda ou outras feições glaciares que poderiam passar despercebidas. Esses são os indícios que contam a história da paisagem, e é incrivelmente gratificante ajudar os hóspedes a começar a lê‑los.
O que você considera mais recompensador ao ajudar os hóspedes do cruzeiro a se conectar com as paisagens?
Urs: São aqueles pequenos momentos de realização, quando alguém diz: “Oh uau, que legal,” ou “Não sabia disso.” Dá para ver a faísca do entendimento, e essa conexão com o ambiente começa a crescer. Isso é o que torna tudo valioso.
Qual papel a narrativa desempenha em suas palestras?
Urs: A narrativa é essencial. Eu sempre entrelaço anedotas históricas e pessoais, seja algo do meu próprio trabalho de campo ou as aventuras dos primeiros exploradores. Isso dá vida à ciência e torna a palestra mais envolvente e relacionável para todos a bordo.
Qual mensagem você espera que os hóspedes levem consigo da experiência do cruzeiro ártico?
Urs: O Ártico é deslumbrantemente belo, mas também intensamente frágil. Espero que os hóspedes partam com um profundo sentido de admiração e uma apreciação mais forte de por que este ambiente precisa da nossa proteção.

Lições de uma vida no gelo
Como você mistura aventura e ciência em sua abordagem à exploração?
Urs: Para mim, a aventura e a ciência sempre caminharem de mãos dadas. A emoção de aventurar‑se em paisagens remotas e geladas foi o que primeiro me atraiu para a glaciologia, mas é a curiosidade científica que me mantém. O trabalho de campo é como fazer investigação em condições extremas: você coleta dados, resolve enigmas e tenta entender como os glaciares se comportam. Seja saltando por uma fenda ou instalando instrumentos em um glaciar ventoso, cada pingo de aventura alimenta a ciência, e cada questão científica leva a uma nova aventura.
Seu trabalho em glaciologia mudou a maneira como você vê o mundo?
Urs: Absolutamente. Vi em primeira mão quão rapidamente os glaciares estão encolhendo, o quanto o meio ambiente está mudando e quão urgente é que atuemos. É profundamente preocupante, e mudou a maneira como penso sobre tudo, desde políticas até responsabilidade pessoal.
Quais qualidades um glaciologista precisa em ambientes extremos?
Urs: É preciso ser resiliente, adaptável e não se deixar desanimar com facilidade. O trabalho de campo glaciológico é duro. Coisas darão errado. Mas se você conseguir manter uma atitude positiva e seguir em frente, as recompensas são incríveis.
O que ainda o inspira cada vez que você parte para uma paisagem congelada?
Urs: É a beleza pristina. Não importa quantas vezes eu volte, sou sempre tocado pelo silêncio, pela vastidão e pelo poder bruto do gelo. Ainda me deixa sem fôlego.