"Gosto de guiar os hóspedes por novos ambientes e poder interpretar o que estão vendo em tempo real."
Há poucas pessoas que conseguem tornar a física solar tão vívida quanto a Dra. Becca Robinson. Pesquisadora, exploradora e talentosa comunicadora científica, ela viaja pelo mundo transformando os mistérios do cosmos em histórias que todos podemos entender. De perfurar testemunhos de gelo na Islândia a decodificar erupções solares com a missão MUSE da NASA, a trajetória de Becca foi marcada por curiosidade, clareza e conexão. Seu tempo ministrando palestras em expedições ao Ártico reflete sua convicção de que exploração e educação caminham juntas. Continue lendo para descobrir o percurso de Becca rumo à astrofísica, o que as luzes do norte podem nos ensinar sobre o Sol e por que ela leva flores de urze norueguesa em todas as viagens.
Oi, Becca! O que despertou inicialmente sua fascinação pelo Sol?
Becca: Gosto da ideia de que tudo está conectado — que nossa relação com o Sol importa, mesmo quando não pensamos em reconhecê‑la. Fascina‑me como o plasma e os campos magnéticos interagem para provocar explosões solares e como o campo magnético da Terra reage, nos protegendo e, ao mesmo tempo, canalizando plasma para a atmosfera para criar auroras espetaculares. Essa conexão é ao mesmo tempo sagrada e poética, e, ao mesmo tempo, resolutamente física e matemática. Gosto de explorar como tudo pode ser muitas coisas simultaneamente e ainda assim permanecer conectado — uma verdade profundamente humana e universal que molda tanto minha vida quanto meu trabalho.
Como seu trabalho no Instituto SETI se conecta com seu amor pela exploração?
Becca: O Instituto SETI foi fundado por pessoas que exemplificam uma paixão pela exploração e pela curiosidade, e tenho orgulho de seguir seus passos hoje. Meu trabalho no Instituto SETI é tornar conceitos científicos complexos acessíveis ao maior número possível de pessoas, e a forma mais eficaz de fazer isso é identificar e encorajar a curiosidade natural que existe dentro de todos nós. Se eu consigo despertar a curiosidade de alguém, essa pessoa passa a estar aberta a explorar e aprender conosco.
O que torna a missão MUSE tão empolgante?
Becca: O Explorador Solar Multi‑fenda (MUSE) da NASA é uma nova espaçonave que coletará o que chamamos de “espectro” da luz solar — essencialmente a impressão digital de uma fonte de luz. Para o Sol, ele revela detalhes sobre a temperatura, velocidade, composição e turbulência do seu plasma brilhante. Normalmente, espectros são medidos usando uma única fenda estreita que percorre o Sol em busca de eventos como erupções solares — mas uma única fenda não consegue capturar a evolução completa de uma erupção, por mais rápida que ela seja. O MUSE usará 35 fendas para observar a evolução espacial e temporal completa das explosões solares. Isso nos dá uma imagem física muito mais clara de como esses eventos se desenrolam — e, com dados suficientes, talvez possamos até prevê‑los antes que ocorram, melhorando nossa capacidade de prever o clima espacial aqui na Terra.

Viagens que transformam
Você viajou muito a trabalho — houve alguma viagem que a mudou?
Becca: Pouco antes de concluir meu doutorado, participei de uma reunião da União Astronômica Internacional em Erevan, Armênia. Além de apreciar a oportunidade de visitar um país belo, aprendi muito sobre a rica história astronômica da Armênia e me conectei com colegas que de outra forma eu não teria conhecido. Isso me lembrou que a ciência pode transcender fronteiras e limites — se permitirmos — e que ela avança com muito mais eficiência quando colaboramos de forma efetiva.
Como suas experiências de pesquisa no Ártico influenciam seu trabalho em ciência solar?
Becca: Acredite ou não, essas atividades andam lado a lado! Os testemunhos de gelo que perfuramos na Islândia serviram como entrada para simulações computacionais de como as geleiras se movem, e esse movimento fornece uma linha de base para entender como o gás energizado no Sol se movimenta. Tudo se resume ao movimento de fluidos — apenas com suposições diferentes e limites distintos para gelo e plasma.
Como viver na Noruega e trabalhar em lugares remotos como Svalbard influenciou sua perspectiva como cientista?
Becca: O ritmo de vida nos Países Nórdicos é diferente do de outros lugares. Há uma forte ênfase no autocuidado, o que sustenta uma cultura de cuidado comunitário, além de trabalhar, brincar, consumir e existir em um ritmo sustentável. Viver lá me ensinou a priorizar meu tempo com mais cuidado e flexibilidade e, a partir disso, construí uma base mais sólida para atender às minhas necessidades básicas. Com essas necessidades atendidas, pude investir no meu trabalho científico a partir de um lugar mais fundamentado — mental e fisicamente. O trabalho importa, mas não se realiza sem cuidar das minhas necessidades fundamentais. E, para ser um membro confiável de qualquer grupo — como minhas equipes de pesquisa — eu preciso cuidar de mim em primeiro lugar. Simplificando: se eu estou bem, todos podemos ficar bem.

Tornando a ciência acessível
O que a atraiu para palestrar nas viagens da Swan Hellenic?
Becca: Tendo trabalhado antes em navios de expedição no Ártico, sabia que estaria bem preparada para esta função. Gosto de orientar os passageiros em ambientes novos e de poder explicar e interpretar o que estão vendo em tempo real. É uma oportunidade excelente para que realmente se aprofunde no significado de existir no Ártico e compreenda melhor os sistemas naturais ao redor — e essa compreensão geralmente conduz a um respeito mais profundo pela natureza ártica.
Como você torna a astrofísica empolgante para os passageiros de cruzeiros?
Becca: Bons recursos visuais são minha ferramenta mais importante! Não gosto de usar muito texto, apenas o suficiente para rotular ou explicar o que os visuais mostram. Procuro um meio‑termo feliz no meu conteúdo — não tão simples a ponto de ser entediante ou incorreto, e não tão complicado que eu perca completamente a audiência. Felizmente para mim, a astrofísica tem muitas imagens bonitas!
Qual foi sua experiência de divulgação mais desafiadora — e o que você aprendeu com ela?
Becca: Achei especialmente desafiador engajar‑me plenamente em experiências de divulgação virtuais durante a pandemia de COVID‑19. Gostei de fazer vídeos para YouTube e TikTok e apreciei a oportunidade de conectar‑me virtualmente com públicos ao redor do mundo — mas, para mim, a energia simplesmente não é a mesma. Fiquei muito feliz quando pudemos voltar a ministrar palestras presenciais!

Aurora e atmosfera
Existe alguma história sobre o Sol que sempre fascina seu público?
Becca: Todo mundo parece gostar da história do Evento Carrington de 1859 — muitas vezes é a que alguém na plateia já conhece! Naquele ano, o Sol liberou uma enorme massa de gás energizado durante uma poderosa explosão de plasma. O que a tornou incomum foi o volume colossal de plasma e o fato de estar direcionada diretamente para a Terra. Quando atingiu, fez com que telégrafos nos EUA funcionassem sem energia, pois o plasma induziu correntes elétricas na crosta terrestre! Também produziu auroras boreais até a Colômbia e auroras austrais até Queensland. Se algo assim acontecesse hoje, poderia derrubar completamente nossas redes elétricas. É por isso que é tão importante continuar estudando o Sol — para prever melhor se um evento semelhante pode ocorrer novamente.
Como os passageiros em cruzeiros polares podem aumentar suas chances de ver auroras?
Becca: Em primeiro lugar: visite os polos na estação certa! Durante o verão polar, o céu está brilhante demais para avistar a aurora — mesmo que ela seja forte. No inverno polar, o céu permanece escuro na maior parte do dia o que, embora seja um pouco deprimente para alguns, oferece uma oportunidade maravilhosa para caçar auroras em (quase) todas as horas. Quando estiver escuro o suficiente para ver a aurora, seja paciente. As luzes do norte muitas vezes começam como uma névoa branco‑esverdeada ao norte e depois ganham forma em arcos e redemoinhos definidos. Se você achar que está vendo uma aurora fraca, mas não tiver certeza, faça uma foto com longa exposição. Se a névoa surgir esverdeada, então é aurora!
Você tem algum fenômeno solar favorito que gostaria que mais pessoas conhecessem?
Becca: Gostaria que mais pessoas entendessem que as luzes do norte e do sul são um resultado direto da atividade magnética do Sol. Quando ensino sobre as auroras no Ártico, sempre começo com uma lição sobre o Sol. O pessoal pode não entender a relevância do Sol imediatamente, mas espero que compreendam após aprender sobre nossa delicada conexão Sol–Terra!

Perseguindo o assombro, forjando conexão
Como colecionadora de rochas e observadora de estrelas, o que a atrai quando viaja?
Becca: Quando exploro novos lugares, gosto de conhecer a natureza ao redor e a culinária local. Gestão da terra e alimentação são dois dos elementos culturais mais importantes que gosto de investigar enquanto viajo.
Você atuou como astrofísica residente no Parque Nacional Badlands — o que mais gostou lá?
Becca: Adorei a combinação de estar ao ar livre e ainda assim poder ensinar. Quem não gosta de aprender sobre o céu noturno debaixo do próprio céu noturno? Não há sala de aula melhor do que o universo!
Qual é uma pergunta que você gostaria que as pessoas fizessem com mais frequência?
Becca: Me importo muito com jovens que estão começando a desenvolver suas habilidades e carreiras, então gostaria de responder à pergunta: “Quais habilidades de sobrevivência você aprendeu?” Eu diria: seja intencional ao desenvolver suas competências e aprenda a alavancá‑las em situações melhores. Você enfrentará obstáculos inesperados e precisará ser criativo e flexível para resolver problemas de maneiras novas. Para isso, dependerá tanto de suas habilidades quanto da sua rede. Construa confiança em si e nos outros — isso pode levá‑lo através de quase tudo!
O que mais surpreende as pessoas quando começam a aprender sobre o Sol?
Becca: Podemos começar pelo básico: o Sol é uma estrela! Isso nem sempre é intuitivo para todos porque ele não se parece com as estrelas que brilhamos no céu noturno. Mas o Sol é uma estrela em torno da qual a Terra e outros planetas orbitam. Ele está muito mais próximo de nós do que as outras estrelas, por isso ilumina o céu durante o dia quando nossa parte da Terra está voltada para ele.
Se você pudesse convidar um cientista histórico para uma viagem da Swan Hellenic, quem seria?
Becca: Ela ainda está viva, mas eu convidaria a Professora Dame Jocelyn Bell Burnell. Ela descobriu estrelas que pulsam rapidamente (chamadas pulsares) durante seu doutorado e, em vez de ser devidamente reconhecida, seu supervisor ganhou infamemente o Prêmio Nobel de Física de 1974 por essa descoberta. Encontrei‑a uma vez quando eu era estudante de graduação, cheia de dúvidas e ansiedade sobre minha própria carreira, e ela compartilhou comigo palavras encorajadoras e sábias. Seria maravilhoso convidá‑la — mostrar‑lhe o que estamos fazendo em física solar, quem me tornei como pessoa e cientista, e dizer‑lhe que ela estava, claro, certa: tudo iria ficar bem.

Constelações e lembranças
Qual é a coisa mais estranha na sua bolsa de expedição?
Becca: Gosto de levar um saquinho de ervas secas comigo em expedições. O mais importante são algumas flores de urze norueguesa ("lyngblomst") que colhi na floresta. Elas são ótimas para chá quando me sinto mal e também um pequeno pedaço da minha segunda casa que gosto de ter sempre comigo.
Onde os céus noturnos lhe tiraram o fôlego?
Becca: Sou uma mulher do hemisfério norte, mas serei a primeira a admitir que o hemisfério sul tem céus noturnos muito melhores. Isso se deve ao ângulo com que vemos o nosso próprio sistema galáctico – o centro da Via Láctea é mais glorioso em latitudes equatoriais, e as latitudes meridionais nos permitem ver duas pequenas galáxias anãs (chamadas Nuvens de Magalhães) que orbitam a Via Láctea. Eu as vi pela primeira vez em Nova Gales do Sul, na Austrália.
O que você mais espera em sua próxima viagem com a Swan Hellenic?
Becca: Estou ansiosa para voltar ao Ártico – sinto-me muito em casa no norte! Mal posso esperar para conhecer os passageiros e ajudá-los a aprender sobre o incrível ambiente que estamos explorando. Chova ou faça sol, seja gelo ou neve, o Ártico é um lugar tão especial e merece ser plenamente apreciado.